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Adoro fim de ano – exceto pelos shopping e estradas lotadas, dos quais fujo como o diabo da cruz. Fico mais em casa, mais quieta, mais sozinha. Mergulho de cabeça na onda de rever o que passou e fazer planos para o que vem. E 2009 foi, para mim, um ano muito especial porque tive a sorte de esbarrar em pessoas com quem aprendi muitíssimo.
Caco de Paula, meu editor na Veja SP, onde trabalhei, escreveu certa vez que assimilamos um pouco de cada pessoa que conhecemos, seja em uma conversa breve ou nas relações mais estáveis e duradouras. Somos, portanto, um conjunto mutante daqueles que vamos encontrando pelo caminho, desde a infância.
Se é assim, me sinto feliz por ter um pouco das pessoas que cito aqui.
EU SOU TAM TAM

Di Renzo, no início dos anos 90, na rádio Tam Tam

E hoje!
Foi uma grata surpresa reencontrar Renato Di Renzo, meu professor de artes no colégio, e a atriz e bailarina Claudia Alonso e descobrir que eles continuam, apesar das adversidades e quase nenhum apoio oficial, mantendo bravamente a Associação Projeto Tam Tam.

Café Teatro Rolidei, da Tam Tam
Por meio de Di Renzo e Claudia, cheguei a Hercílio e José Gonçalo, personagens da vida deles e de uma reportagem minha sobre o que aconteceu com os ex-internos da Casa de Saúde Anchieta, o primeiro manicômio do Brasil a sofrer intervenção pública, dando início à reforma psiquiátrica no País. Vinte anos depois, encontrei um Hercílio independente e trabalhador e um José Gonçalo cantor e compositor, com CD gravado e o nome artístico de Jacaré Gularstone.

Eles provam ser possível aos que têm distúrbios psiquiátricos levar uma vida independente se acompanhados, assim como os que sofrem de qualquer outro distúrbio – cardíacos, obesos, diabéticos, portadores de HIV, hemofílicos etc..
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E AÍ, BELEZA?

Claudia e Di Renzo me proporcionaram um momento especial no ano, que foi o desfile com voluntários, jovens e adultos atendidos pelo projeto, no lançamento da campanha E Aí Beleza? Eu sou assim!. Muitas das roupas, lindíssimas, foram produzidas por eles, incluindo o vestido que encomendei para o Ano Novo, pintado especialmente por Rubio, um dos mais antigos integrantes das oficinas de artes do projeto. Lindo trabalho, o do Rubio!

A campanha E Aí, beleza? traz uma releitura dos antigos calendários de bolso, agora com a nudez de uma senhora de 94 anos de idade, um travesti, a dona Elisabet Custódio (foto), e outros.
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O RIO DE JANEIRO CONTINUA LIIINDO…

Jose Junior (à dir. na foto, ao lado de Daoud), fundador do AfroReggae, que usa a cultura para afastar crianças e jovens do narcotráfico, me proporcionou outro momento muito especial, que guardarei para sempre: um dia no Complexo do Alemão, conjunto de favelas que costuma figurar na imprensa em reportagens sobre violência, mas onde há também uma alegria contagiante, um colorido, a música sempre presente, crianças brincando e estudando e muita gente correndo atrás de uma vida melhor honestamente. Não faço aqui uma apologia à favela e muito menos ao tráfico, mas àqueles que sobrevivem a um duro dia a dia, apesar das dificuldades de viver em uma favela e na presença opressora do tráfico. E, é claro, àqueles que se empenham em virar esse jogo e sobreviventes como Chinaider Pinheiro, recrutado pela ONG na cadeia e hoje coordenador do projeto de empregabilidade para jovens.
No grupo em visita ao Complexo do Alemão estavam Daoud Hari, refugiado sudanês que escapou da morte em Darfur, história que ele conta no livro O Tradutor, publicado no Brasil pela editora Rocco; e a canadense Catherine Pappas, diretora para o Oriente Médio da ONG Alternatives, com projetos no Afeganistão, Paquistão, Palestina, Sudão e Iraque. Catherine levou com ela ao Alemão a filhinha que acabara de nascer. “Você não tem medo?”, perguntei a Catherine, sobre a laje de uma casa no centro do Alemão. “Não. Me parece que nascem muitos bebês nessa favela”. OLhando para o céu azul do Rio, pincelado por múltiplas cores, Daoud observou que “onde há pobreza e conflito, há também muitas pipas”, referindo-se ao cenário de O Caçador de Pipas, no Afeganistão.

Essa experiência bacana rolou pelas mãos de outro grande profissional, Edson Natale, que se tornou um amigo querido! Natale é um artista, músico, produtor cultural, articulador de boas ideias e pessoas, profundo conhecedor da arte, nacional e internacional, na qual aposta como ferramenta de inclusão (e eu também!). Natale me deu a honra de subir no palco do auditório do Instituto Itaú Cultural, na Avenida Paulista, para mediar palestras de gente absolutamente maravilhosa que promove a paz por meio de ações culturais mundo afora, durante o evento Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Obrigada, Natale!!!
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LUZ SOBRE A REALIDADE

André Liohn, fotógrafo brasileiro viaja registrando as tragédias humanas que o mundo precisa encarar. Ele me deu a honra de escrever sobre o drama de refugiados somalis, a partir de seu relato pessoal, linda reportagem e fotos incríveis. Grande André!
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ELES AJUDAM A VIVER
E então conheci Dalva Yukie Matsumoto, médica de olhos pequenos, mas o sorrido largo, que enfrenta dia a dia, na Hospedaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Municipal e no Premier Hospital, aquilo que a maioria dos médicos mais teme: perder um paciente. Ela é médica paliativista e já organizou até o casamento às pressas de um paciente com câncer terminal. Tudo para realizar seu desejo.
Na mesma reportagem, pude falar sobre o centro público de cuidados paliativos que conheci na França, o La Maison, de médicos igualmente incríveis e dedicados como Jean-Michel Riou, que conseguiu até um avião para satisfazer o último desejo de um paciente terminal: voar sobre Côte d’Azur.
Já a conversa com Antonio Carlos Seguro, supervisor da UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor em outra reportagem, sobre a temida gripe suína, foi um alento para a minha credibilidade na medicina à serviço público, que eu julgava perdida.
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PERSONAGENS DE MUITAS HISTÓRIAS
É sempre um privilégio e uma grande responsabilidade ouvir aqueles que generosamente nos confiam suas histórias pessoais. Aprendi muito com elas e espero tê-las transmitido com fidelidade. Entre elas, as de:
Marinete Rodrigues Pereira, de 39 anos, que apesar dos movimentos trêmulos por causa de um câncer no cérebro fez questão de passar batom para a imagem que generosamente cedeu de si própria e ilustra a reportagem sobre cuidados paliativos publicada no Estadão.

Theresa Amayo, que me relatou a sua vida cinco anos após perder a filha, o neto e o genro em um tsunami na costa asiática, em dezembro de 2004. “É preciso seguir vivendo, pelos que ainda estão com a gente”, disse.
Maria, a espanhola que em uma cela da Casa de Detenção Feminina da capital confiou a mim a história de sua vida, da prostituição na Espanha e Holanda às 61 cápsulas de cocaína que ingeriu e que a levaram à prisão e quase à morte no Brasil, ajudando a expor a tragédia de centenas de estrangeiras pobres usadas como “mulas” pelo narcotráfico internacional.
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SUPERAÇÃO
Marcelo Senna
Foi um grande privilégio testemunhar o talento e perseverança do autodidata Marcelo Senna, o desenhista de São Paulo, a convicção cativante de Márcia de Alencar em defesa da penas e medidas alternativas, a força de vontade de Ivanildo Dantas, o menino pobre da periferia de São Paulo que virou chefe de cozinha do Restaurante Escola São Paulo – projeto, aliás, elogiável e que deveria ser expandido – e o processo de recuperação de Kresley, o menino que virou iogue dentro da Fundação Casa.

O chef de cozinha, Ivanildo Dantas.
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MULHER DE BOA ALMA

Foi de grande riqueza o bate-papo com a queniana Auma Obama, irmã do presidente Barack Obama e uma das ativistas da Rede Esporte Pela Mudança Social, que não apenas reconhece o poder do sobrenome que carrega, como admite sem pudor o uso dele para dar visibilidade à causa que defende na África.
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OUTONO EM CABUL
Os afegãos, com suas histórias e hospitalidade, me permitiram publicar, em fevereiro, um especial sobre a situação humanitária no Afeganistão e realizar uma exposição de fotos com o mesmo tema, em junho, durante o mês da mostra Imagens do Oriente, no CineSesc.

Obrigada aos organizadores, Gilson Parker e Márcia, do CineSesc, Arlene Clemesha, criadora da mostra, e a superempenhada escritora Márcia Camargos, além dos editores Ary Schneider e Roberto Gazzi, que apostaram no projeto desde o início, e, especialmente, ao editor de fotografia Juca Varella, que generosamente doou todo o seu talento à mostra, da qual foi o curador. A exposição não teria saído sem ele!
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A imagem de um grupo de costureiras em Cabul, editada por ele, foi uma das 50 selecionadas para integrar uma campanha da Organização das Nações Unidas, Humanizing Development (Humanizando o Desenvolvimento), que tem como objetivo dar rosto aos precursores de grandes avanços no desenvolvimento humano mundo afora, como aquelas batalhadoras mulheres afegãs.

Obrigada, geeente! Aplausos!
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