
Alex,
A impressão q tive da diferença entre teu estilo no blogue e teu estilo no livro foi como a impressão q a gente tem qdo ouve um cantor conversando e depois o ouve cantando e soltando um vozeirão. Fiquei muito impressionado, literalmente, com tua habilidade na fraseologia ficcional, perfeitamente casada com a mentalidade da Carla; todo o vocabulário feminino, tanto de palavras como de linhas de pensamento, foi uma realização ímpar. Na maior parte do livro, a Carla é como um ser vivo, falando ali em frente ao leitor, uma velha conhecida q solta o verbo num bate-papo, um triunfo de realismo. Vc consegue até mesmo dotá-la desse aspecto das pessoas reais q as deixa de certo modo menores do q os grandes personagens de ficção, personagens estes q aparecem numa aura de idealização, seja heróica ou maligna ou “realista”; sobre a Carla, não aparece a questão de se o leitor gosta ou não gosta dela, se se identifica ou não com ela, if one cares about her or not: ela é uma conhecida como as outras – pessoas cujas atitudes a gente aprova e às vezes não, mas q a gente na verdade nunca pára muito pra pensar sobre. Com essa criação, vc matou a pau (q é a maneira como nós aqui em português dizemos “it’s a great achievement”).
Mas… (comigo sempre tem um ‘mas’)
Puta q pariu, ¿foi preguiça o final? Terminar desse jeito novela-do-manoel-carlos, “passa um tempo na Europa e tudo se resolve”… Paguei R$25 por ¿ISSO? Meu nome tá ali impresso como mecenas ¿DISSO?
Cara, vc me deixou putíssimo da vida. Tou brincando sobre os R$25 e meu nome no livro, claro. Fiquei puto e puzzled foi com o motivo q pode ter feito vc abandonar desse jeito tão displicente uma idéia ficcional brilhante e um talento assombroso pra criar e desenvolver uma voz de personagem. ¿Que deu em vc? preguiça? encheu o saco? crise de auto-confiança? preferiu ficar aí nas tetas de uma carreira acadêmica em vez de USAR teu talento? prefere deixar como tá e soltar um monte de stuff and nonsense sobre a ficção não ser “confiável, calmante, confortável”? Que catso? Que porra?
Essa história do triângulo assombroso tá pedindo mais. Pra mim soa como a primeira parte de um livro três vezes maior. Imagino outras duas partes com o Murilo narrando e depois a Júlia, ou o contrário, pra q a gente fique sabendo o q REALMENTE tava acontecendo na cabeça dos outros dois, longe do q eles dizem prà Carla. O Murilo e a Júlia nunca se entregam um ao outro, mas ¿por quê, exatamente? ¿Será q a Júlia realmente deseja Murilo? ¿Será q ela não é só uma infantilóide mimada? ¿Será q os motivos do Murilo realmente são os q a Carla imagina? ¿Será q ele na verdade não tá totalmente entediado com as duas, mal as nota e só pensa no trabalho? E não me venha com essa de “Olha q lindo, vc fazendo toda uma história tua na cabeça, inspirado em meu livro, q lindo, te amo.” ¡O caralho! Vá se catar. Essa é TUA tarefa. Isso é VOCÊ q tem q fazer agora. Essa é TUA responsabilidade. Paguei R$25. Vc não pode usar modernismos críticos e escanteios de interpretação pra desculpar tua “escolha”de não ir mais fundo. Vc TEM q tranformar esse livro numa empreitada de gente grande, de adulto; não pode relegar essa idéia genial ao plano de uma novela da Globo. Sorry.
E não venha dar uma de Murilo/Alex pra cima de mim, q não nasci ontem. Tamos falando de teu TALENTO, não das desculpas q vc dá pra não usá-lo até o talo.
Abs,
Nunca me passou pela cabeça a idéia de dar voz a Murilo ou Júlia. O que justifica o romance pra mim é exatamente eles não terem voz e serem sempre vistos através das Carla. E, sim, eu tinha um romance três ou quatro vezes maior planejado.
Mas nada do que iria acontecer depois chegaria aos pés do romance que você tem nas mãos. Seriam mais e mais peripécias, uma atrás da outra, mas sempre mais do mesmo. Depois de cento e tantas páginas, a voz da Carla perderia a força, a vitalidade, o impacto, a novidade, e o ganho de enredo não seria o suficiente pra sustentar essa perda.
Os leitores não iriam conhecer os personagens melhor: só iriam vê-los fazendo mais coisas. As dúvidas que você tão bem levantou, que são sutis quando você as levanta por entre a penumbra da ambiguidade de Carla, se tornariam banais se arrastadas pra debaixo da luz e desenvolvidas no enredo.
Por muitos anos, eu amei e convivi diariamente com esses personagens. Sei cada detalhezinho de suas vidas. Pensei em quinhentas e uma maneiras de continuar o enredo e de passar mais alguns meses na companhia deles, mas todas essas maneiras acabavam resultando em um romance aguado, fraco, diluído. Um romance que comete um dos piores pecados que um romance pode cometer: overstaying its welcome.
Na minha vida, sempre preferi ser o cara que sai mais cedo sem avisar e sem se despedir de ninguém, que deixa saudade e vira assunto de quem fica, do que ser o mala que vai ficando, ficando e nunca vai embora.
(Visite o site do Doutor Plausível.)

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