somerights20 Watchmen: ótimo e desnecessário
Watchmen - O Filme

Se Alan Moore resolvesse, por um momento, flexibilizar seu boicote contra as obras cinematográficas baseadas em suas histórias, e assistisse a Watchmen (2009), muito provavelmente gostaria do trabalho cuidadoso e respeitoso do diretor Zack Snyder. Não ficaria encantado, é claro. Assistiria aos primeiros vinte minutos e iria para a cozinha fazer um sanduíche, mas não se sentiria ofendido como em tantas outras vezes.

Óbvio que existem mudanças marcantes de roteiro, não poderia ser diferente, mas no fim temos um filme absolutamente fiel ao que poderíamos chamar de “espírito” da obra original. O mundo está próximo de um catastrófico colapso e os super-heróis, os únicos capazes de lidar com a ameaça, estão absorvidos por dramas humanos, daqueles em que qualquer um é capaz de se reconhecer. São questões de uma normalidade deliciosa em alguns casos, mas que chegam a ser ofensivas para quem está acostumado a idealizar e admirar seres super poderosos. O Coruja, por exemplo, “falha” completamente ao conseguir levar a deliciosa Laurie Jupiter para a cama. Atire a primeira pedra o homem que, apaixonado, teve pela primeira vez a mulher amada em seus braços e não ficou nervoso. O contraponto está no semi-deus Dr. Manhattan e no fantástico Rorschach. O primeiro nos mostra o quanto foi importante para o Superman ter sido criado em uma fazenda do Kansas, já que de outra forma um super ser provavelmente perderia quase que completamente sua humanidade; e o segundo, bem, é o que de melhor existe no filme, além do traje (ou da falta dele) da nova mulher da minha vida, Malin Akerman. Falando em trajes, os produtores dos filmes do Batman poderiam aprender muito com a caracterização do Coruja, por incrível que pareça. Os movimentos do personagem ficaram muito melhores que os de Bruce Wayne vestindo aquela armadura. No mais, há uma tensão permanente entre esses dramas tão humanos de alguns e toda a grandiosidade ou intensidade de outros, retratada de maneira espetacular; sem falar da ultra-violência estilizada, que eu tanto gosto.

O problema é que nada disso é o bastante para fazer de Watchmen o filme grandioso que ele merecia ser. A obra cinematográfica fica situada numa zona intermediária extremamente incômoda, o que talvez até explique seus baixos resultados de bilheteria. Para quem não leu a revista ou não é fã de quadrinhos, a fidelidade do filme à obra original não diz absolutamente nada, e este espectador pode até achar o filme arrastado. Já para quem leu, o problema é ainda maior: não há momento no filme que supere a experiência que é ler o trabalho de Alan Moore. Há um momento marcante, o do exílio do Dr. Manhattan em Marte, quando passado, presente e futuro se confundem em seu pensamento, que exemplifica bem o que quero dizer. É o volume 3 (se não me engano) do Gibi, e o leitor se vê inserido num verdadeiro turbilhão de informação e emoções. É simplesmente lindo e arrebatador, e um dos melhores momentos dos quadrinhos em todos os tempos. O filme, nesta cena, a despeito de toda a grandiosidade dos efeitos, não consegue nem sequer chegar perto de tamanha intensidade.

Minha teoria para este fato é que o cinemão mata parte do diálogo fundamental que o leitor tem com os quadrinhos; um diálogo que é mesmo definidor da obra artística. Cada gota de tinta e cada letra no papel estão ali para permitir ao leitor uma viagem, munido da própria imaginação, das próprias emoções. Impossível transportar este efeito para outra mídia sem perder muito, já que a obra de arte também é sua forma. Fico pensando que tais adaptações são realmente desnecessárias. Deveriam ter deixado Watchmen em paz, como o ótimo Gibi que sempre foi. O fã não precisava do filme, cada um de nós tinha a própria história na cabeça. Questiono também a validade de todos esses filmes baseados em heróis dos quadrinhos; a não ser que, sei lá, Mario Puzo volte dos mortos e crie roteiros tão fantásticos quanto foi o de Superman (1978). Se é para continuar com isso, que pelo menos deixem as grandes obras de lado; que criem roteiros originais.

Outra coisa, tenho lido muito que a cena com a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, é uma referência direta a Apocalypse Now (1979), meu filme favorito. Será que não passou pela cabeça desse pessoal que ambos os filmes podem ter a mesma referência original, e não que um homenageie o outro? Existem referências fora da cultura pop, acreditem.

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